Timing da edição cinematográfica

Você já assistiu algum filme, vt institucional ou comercial que tem excelentes imagens, com uma atuação sensacional dos atores, uma direção de fotografia perfeita mas apesar disso tudo tinha alguma coisa faltando?
Acho que todos já se depararam com isso, a edição é fundamental num processo de criação audiovisual, não adianta nada ter um roteiro maravilhoso, destacados atores e diretores mas a edição estragar tudo.
Todo processo audiovisual é formado em partes que devem se fundir, a junção de todos os elementos se dá na edição, muitas vezes o editor de vídeo tem a árdua tarefa de tapar os buracos de uma produção feita às pressas, de imprimir uma lógica para um roteiro desconexo, de amenizar atuações fracas de atores amadores, de fazer correção de cor em takes onde a calibração da temperatura de cor foi mau planejada, de entregar “ouro” pro cliente tendo somente “barro” pra trabalhar, definitivamente não é um trabalho simples e fácil, a responsabilidade, complexibilidade e conhecimento (técnico e artístico) de um editor que trabalha profissionalmente tem que ser muito grande.

Dentro do amplo contexto artístico que um editor trabalha, há inúmeros fatores que o conduzem por uma linha de narração das imagens, o repertório (visual e conceitual) de um montador cinematográfico tem que ser extremamente abrangente, e desse universo maior  de várias características que formam a edição eu quero focar em uma delas: o timing da edição. Quando falo desse ritmo de montagem não estou falando da velocidade de workflow do profissional, pra isso teríamos que falar das diferenças de softwares, de edição online e off line, formatos e equipamentos e geralmente esses temas levam aquelas discussões irrelevantes de qual equipamento é melhor que qual,  embora a agilidade do editor seja importante não é sobre isso este post, o timing de edição que eu me refiro é sobre o conceito visual das imagens filmadas.

Toda montagem tem um ritmo, seja um videoclipe, um clipoema, uma vinheta, um longa metragem ou mesmo um curta. Essa velocidade com que as imagens são apresentadas tem muito a ver com a idéia que está na cabeça do indivíduo que realiza a edição, TUDO gira em torno do conceito visual dele, se esse conceito é limitado o material final ficará igualmente limitado. Parte de uma excelente edição é deixar takes excelentes de fora dela, sei que parece contraditório mas muitas vezes vi o editor errar a mão do timing por querer incluir todas as boas cenas na edição fazendo com que a duração dos takes ficassem extremamente curtos pra caber no tempo geral.
Outro erro comum é não manter alinhado o áudio e o vídeo, não estou falando de sinck, isso seria um erro grotesco mas manter uma sequência visual que não combina com a trilha sonora, um não pode destoar do outro, embora sejam trilhas independentes elas fazem parte do mesmo corpo, uma trilha musical rápida não vai combinar com uma trilha de vídeo inteira em slow motion e vice-versa, tem que ter um músico profissional acompanhando o processo.

Levar em consideração o público alvo também é fundamental, por exemplo: um comercial pra crianças obrigatoriamente vai exigir uma variedade e velocidade de cenas maior que o normal, a duração da atenção delas é muito menor que dos adultos ou idosos, já um vt para um spa será outro ritmo visual pelo próprio briefing do trabalho. Ter no mínimo uma noção de movimento de câmera é primordial para um editor, conhecer os planos de cena,  enquadramentos, o que é um chicote, pan, zoom in/out, traveling, dolly, grua, steadicam, following shot, tilt, e etc.  Já vi transições de take onde a mudança de uma cena com plano aberto mudava em corte seco para um plano fechado que tinha uma sequência em tilt, até aí sem problema, não fosse o fato de que o editor não se importava em deixar alguns segundos rodando no plano fechado para então começar o movimento tilt, já transicionava de um quadro pro outro com o movimento rolando, impossibilitando de identificar o que estava acontecendo na imagem filmada.

James Cutting, psicólogo da Universidade Cornell, em Ítaca, Nova York estudou o timing de edição de 150 filmes de Hollywood, chegou a conclusão que os filmes mais bem sucedidos da mega-indústria cinematográfica giravam em torno da fórmula 1/f  (padrão de duração das cenas e da mudança entre elas),  o importante é que haja sequências de tamanhos semelhantes, que se repitam em um padrão regular dentro do filme, James não acredita que os produtores tenham idealizado com antecedência essa velocidade de uma forma proposital, é um padrão matemático de tempo que ele descobriu, não uma regra cinematográfica de filmagem. De qualquer forma essa descoberta só evidencia a importância do senso da narração visual que o editor deve ter. Antigamente a famosa edição linear (como a máquina de datilografar, uma letra por vez e não poderia ter erro) limitava as ferramentas e a tecnologia de incrementar efeitos e alternar o ritmo da edição, hoje em dia com a edição não-linear (como um editor de texto eletrônico que permite alterações e correções instantâneas) colabora em termos de facilidade mas nem todos que dominam a tecnologia tem domínio sobre o conceito. Com qualquer programa de edição hoje em dia é possível alternar a velocidade de um take, ainda mais quando não há som das imagens filmadas, só uma narração e trilha de fundo, não há problema em se fazer isso, na verdade as vezes é até necessário, mas esse recurso utilizado repetidas vezes em uma sequência vai gerar um desconforto visual, o ideal é que o ritmo da ação que é filmada seja a mesma da edição, salvo em casos onde se altera a velocidade com o objetivo de conseguir algum efeito como slow-motion, time lapse ou alguma correção de time, mas de forma moderada, uma edição onde a maioria dos clipes teve a velocidade alterada não terá um bom resultado.

O processo de pós-produção é muito similar a um pintor, um artista que pinta quadros tem que saber a hora de parar a obra, tem que discernir o instante em que o quadro ficou pronto, quantos quadros foram desperdiçados por alguns traços a mais que foram desnecessários estragando tudo?  Na montagem é assim, tem o excesso que deve ser evitado, existem diversas técnicas de edição, desde tilt-shift até time remapping, não adianta o profissional da área se empolgar e aplicar todos os recursos que sabe num único trabalho, vai descaracterizá-lo. A velocidade dos takes e movimento de filmagem vai alternar de acordo com o brifing do trabalho e do gênero cinematográfico, filmes de ação terão um ritmo mais acelerado, planos mais abertos, já um filme de suspense utilizará tomadas mais fechadas, escondendo o “desconhecido ou o perigoso”, terá cenas mais escuras, enfim, cada gênero terá uma linguagem própria, mas em todas elas o ritmo da narração visual pode prejudicar ou colaborar na edição, não existe uma fórmula mágica pra que as coisas funcionem, se o filme for de ação não adianta somente optar por um ritmo mais rápido na mudança dos takes, é todo conjunto que trabalha para mesma finalidade, o uso de multicam em cenas de ação é fundamental, posicionamento das câmeras, enquadramento, iluminação, enfim, não é um ítem isolado que garante aquela edição redonda. O filme “Celular – Um Grito de Socorro” é de ação e ficou com uma edição excelente, assim como o filme “72 horas” (The Next Three Days), é o tipo de filme que você “entra” na história, como disse, não é só a edição, pra chegar nesse ponto tem que casar o roteiro, direção e etc, na edição você deve ficar de olho em tudo, principalmente no timing dela.

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