Atores de verdade…

Assistindo o filme argentino “La historia oficial”, primeiro filme latino-americano a receber o Oscar de melhor filme estrangeiro entre outros prêmios, fiquei pensando em uma afirmação que sempre fiz e que considero muito verdadeira:

“Antigamente havia mais romantismo, as crianças tinham o hábito de ler mais e os atores eram muito melhores”.

Sei que parece uma frase meio de velho rabugento, minha esposa sempre me falou que parece que eu vivo em outra época, que eu gosto de músicas, filmes, esportes e de todo estilo de vida de décadas passadas, mas independente do meu gosto pessoal, que os atores eram melhores eles realmente eram!

Filmes como “A Beira do Abismo” (The Big Sleep – 1946), “A Ponte De Waterloo” 1940 e “Remember the Night” 1940 são só uma pequena amostra disso, atuações espetaculares de Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Robert Taylor, Vivien Leigh e Fred Mac Murray não se vêem mais hoje em dia, alguns críticos podem justificar dizendo que o gênero cinematográfico mudou, que mudanças tecnológicas e culturais trouxeram novas linguagens, mas acredito que embora isso até seja em parte verdade, não são os responsáveis por essa decadência de atuações, os verdadeiros “culpados” pelo amadorismo dos atores atuais são basicamente dois: O isolamento cultural e
a queda do padrão na admissão ao mercado de trabalho.

O isolamento cultural:

Antigamente o teatro fazia mais parte da cultura dos atores de TV e cinema e da sociedade como um todo, não é a toa que os melhores atores brasileiros são justamente os mais velhos, isso não é resultado somente de mais anos de vivência mas de mais interação com a arte do teatro, no palco um ator nunca vai ouvir: corta! Errou é ao vivo, improvisação é lei pra quem faz teatro.

Atualmente cinema e televisão são vistos de uma forma um pouco mais isolada e desassociada ao teatro do que no passado, as pessoas respiravam mais teatro, mesmo a televisão, não era esse lixo de entretenimento que é hoje, as novelas lá de trás tinham uma narrativa mais inteligente e um roteiro mais argumentativo, as de hoje só mudam de nome, permanecem com o mesmo contexto medíocre de intrigas, fofocas e sexo.

Na realidade as novas gerações estão se tornando consumidores de lixo televisivo, essa frase parece mais uma de velho rabugento mas é pura verdade, esses programas absurdos de tv que só tem besteira e baixaria existem porque há audiência, telespectadores sem o menor paladar visual e cultural!

O teatro andava de mãos dadas com os atores da tv, ele não era uma arte isolada mas parte primordial da atuação dos atores, infelizmente houve um isolamento dessa área, claro que cada uma delas tem peculiaridades que as diferem entre si, mas o teatro era uma escola de atuação pra qualquer um que quisesse se tornar um profissional de televisão, atores eram formados no teatro, atualmente são formados onde?

O técnico de futebol Joel Santana fala que jogador bom mesmo joga até sem a bola no pé, está marcando e se desmarcando, os filmes antigos mostram atores se destacando na interpretação mesmo quando não estavam falando, quando estavam em silêncio, no modo de andar, de ouvir, em tudo, era comum ver takes com plano aberto mostrando seis ou sete pessoas interagindo ao redor de uma mesa, hoje em dia isso é mais raro. Não estou dizendo que atualmente não existem atores excelentes, ou que o Brasil não tem esses talentos, mas que nas décadas passadas os diretores conseguiam tirar o que os atores tinham de melhor e tinham profissionalismo
para extrair deles, o que não ocorre hoje em dia, não com a mesma qualidade e nível de exigência.

Aqui vai um resumo de alguns atores que particularmente me chamam a atenção por se dedicarem muito ao trabalho e serem donos de um talento incrível, são eles: Robert Knepper, Marshall Allman, Robert Carlyle, Mel Gibson, Viola Davis, Octavia Spencer, Gabourey Sidibe, Denzel Washington e nacionais: Selton Melo, Marco Nanini, Rodrigo Santoro e Fernanda Torres.

Queda do padrão:

Antigamente atores e atrizes tinham que ser inteligentes, engraçados, profissionais, espontâneos, intensos, vinham de uma vasta vivência teatral, hoje em dia como funciona? Qualquer ex-BBB que tenha um corpo bonito e queira posar nua na playboy em poucos meses vira (do dia pra noite) “artista”, apresentadora de programa, atriz e assim por diante…

Não há um padrão, são oportunidades que aparecem por namorar ou conhecer alguém famoso, “atrizes” lindas mas completamente amadoras,  sem a menor capacidade para interpretar algum papel na tv ou no cinema, sem o mínimo de conhecimento em comunicação e interpretação.

O cinema brasileiro tem evoluido nos últimos anos, eu particularmente adoro filmes nacionais, existem vários filmes sensacionais, geralmente as pessoas falam mal de filme brasileiro porque estão condicionadas a assistir filmes americanos que dominam o cenário mundial de entretenimento e com isso já tem pré estabelecido um conceito de “bom” e “ruim” e de linguagem cinematográfica, porém ainda que existam filmes excelentes como “Tropa de Elite” e atores sensacionais como Selton Melo (que parou de fazer novelas e se dedicou aos filmes), o avanço do mercado de cinema no Brasil ainda enfrenta obstáculos absurdos que oscilam desde diretores picaretas que não pagam a equipe de produção, desvio de verbas de leis de incentivo, contatos políticos que favorecem “profissionais” da área, uma tendência clichê de rodar produções espíritas como “Chico Xavier e Nosso lar” até atores quem nem nas novelas tem uma atuação boa e vão tentar fazer cinema (muito disso se deve ao fato de que a vivência em teatro foi substituída por vivência em BBB (Big Brother Brasil).

Assistindo o impecável filme argentino “La historia oficial” do diretor Luis Puenzo e vendo atuações simplesmente espetaculares de atrizes como Norma Aleandro e Chunchuna Villafañe fiquei perplexo de conseguir contar nos dedos de uma mão quantas atrizes brasileiras conseguiriam interpretar esses papeis tão complexos de um roteiro extremamente delicado historicamente falando, cenas de quase 10 minutos de falas que vão desde a euforia à depressão, da alegria à tristeza, quando vi o filme fiquei impressionadíssimo com a qualidade da atuação das atrizes, enquanto no Brasil a exigência é aceitar posar pelada, usar mini-saia e ser vulgar, em outros países onde o cinema é levado mais a sério, a exigência para ter um papel importante num longa é ter vivência teatral, experiência em interpretação, conhecimento de comunicação corporal e expressivo, inteligência, fluência em
outros idiomas e uma bagagem cultural abrangente, enquanto o Brasil continuar com o lema: “Fique pelada e leve um Oscar”, filmes toscos continuarão a ser produzidos, o clichê de apelar sexualmente para prender a atenção de alguém vem sendo usado desde pornochanchada até comerciais de cerveja. Aos que não viram “La historia oficial” recomendo veementemente!

Rodolfo Miró

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