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O Tiro no pé da Google

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Quando vi o trailer do filme “Os Estagiários” com nome original (“The Internship”) fiquei curioso pra assisti-lo, como um admirador da Google e de todas as inovações tecnológicas da empresa eu pensei: óbvio que vai ser uma espécie de propaganda da empresa em formato de filme mas ainda assim pelo trailer parecia interessante. O resumo era de dois adultos que após perderem o emprego de vendedores se arriscavam a participar de um programa de estagiários da Google, onde todos eram muito mais jovens que eles e dominavam tudo o que se refere a tecnologia, a qual eles eram muito desatualizados. Ok, a idéia até tinha potencial pra se tornar um bom filme. Dizer que o filme é ruim seria um grande e exagerado elogio, o filme é TENEBROSO de ruim! Até agora ainda estou tentando acreditar que realmente tiveram coragem de lançá-lo e que o corte final foi aprovado como ficou. 

O filme não tem erros em relação a direção de fotografia, som, foco e etc, mas erraram a mão de uma forma absurda quanto ao roteiro. Sempre tive aquela idéia da Google como uma empresa moderna e descontraída, o oposto de uma empresa careta, o conceito de ser descolada me chamava a atenção, aspecto que por um lado foi abordado no filme mostrando a estrutura dos escritórios, mas o responsável pelo processo de seleção dos estagiários era um camarada totalmente rígido, antiquado, mal humorado, parecia o general de um exército, justamente o oposto do conceito que a empresa tenta passar! Talvez queriam mostrar que a diversidade também é um valor? Ok, mas pra isso não precisava ir contra outro valor da empresa! Não tinha como ter colocado um recrutador pior pra representar a Google! Juro que tentei encontrar alguma razão para o perfil do personagem justificando que talvez fosse pra mostrar que ainda que a empresa seja “descolada” também são exigentes, mas foi muito nada a ver o personagem com o conceito da empresa! 

Lembro que um amigo do Brasil sempre me falava que o “segredo de um filme” está no roteiro, que não adianta nada ter uma produção e uma finalização sensacional se não tiver um cérebro inteligente no roteiro, nesse filme definitivamente não teve! Após achar muito estranho o perfil carrasco do funcionário “Google” veio todo o exagero de promover a empresa, ok, óbvio que um filme com a temática da empresa ia promover a empresa, nada mais justo, mas nesse caso foi demais, passou do ponto, não é a toa que tem tantas críticas na internet sobre esse filme, a sensação é de um comercial estendido, e muito mas muito mal planejado! 

Além desses foras e de piadinhas clichês veio a grande viagem do filme, a tara por sexo! Novamente tentei encontrar sentido de que o filme era para um público jovem e tal mas se eu falar que a dose erótica foi exagerada eu estaria sendo muito modesto! Ainda não entendi se era pra ter sido uma comédia ou se era mais um “estilo” pornochanchada mesmo. Já no início do filme mostra o dono de uma loja de colchões falando para seu cunhado que deixou de fazer sexo na vagina da irmã dele, porque o anal era “muito melhor”, ele dizia que uma vez que você tem acesso a “porta dos fundos” a entrada tradicional (vagina) deixa de ter graça, em seguida vai atender uma cliente com uma calça justa e com um traseiro avantajado. Diálogos sem pé nem cabeça com o contexto do filme, era o tipo de conversa que além de estar fora do enredo só estende o tempo da edição tornando o pesadelo do corte final ainda pior. Comentários que não acrescentam absolutamente nada a história, nem diretamente nem indiretamente, ou seja, aplicando qualquer regra narrativa para construir um roteiro, não só poderia como deveria ter sido descartado.  

Depois do papo sobre sexo anal, num outro momento quando a dupla que deseja trabalhar na Google entra na empresa, um jovem ao vê-los comenta com um amigo: Será que eles são gays? E o outro responde: Eu adoraria que meus pais fossem gays! Deixando de lado o bom senso de que todo ser humano que existe no planeta é resultado de um casal hétero sexual, sendo impossível de fato ter pais gays, tentei mais uma vez encontrar uma explicação para mais uma inexplicável pérola sexual do filme: Quem sabe eles querem mostrar o choque das idades, de como é a cabeça dos jovens… mas novamente ficou aquela frase perdida, “livre de preconceitos” no meio de um roteiro confuso…

Depois do “moderno” comentário sobre pais gays o filme segue mostrando uma estagiária que só fala de sexo, piadas com o tom sexual a cada 20 segundos, depois mais pra frente a dupla experiente leva os amigos mais jovens a uma balada na noite e novamente o filme se perde em quase 15 minutos com cenas de striptease, mulheres rebolando no colo dos adolescentes que ejaculam diversas vezes na calça, em meio a cenas de sacanagem e brigas, surge a funcionária Google sexy! Uma dançarina striper que também trabalha na Google! Quiseram mostrar o que com isso? Que a empresa não tem preconceito?! Que é “contemporânea”?  

Todo o filme segue com essa conotação sexual dando a impressão de estar vendo uma comédia pastelão do tipo American Pie, no desfecho do filme um dos atores está num asilo e um amigo lhe diz que é “sensacional” fazer sexo grupal com as velhinhas!!! Nessa hora deixei de tentar justificar tanta besteira pra um filme só! De sexo anal passando por adoção homossexual e terminando em sexo grupal com idosos, eu pensei: Caraca! O filme não era pra ser uma comédia? Não era sobre os 2 desempregados já adultos tentando entrar numa empresa como a Google???    

Erros básicos de roteiro: sair do enredo, mudar o foco, desconexão de idéias, tentar fazer 2 filmes em um, todos esses erros e muito mais é possível ver em “Os Estagiários”, não dá pra acreditar que o trailer é o mesmo do filme! Tem filmes que são ruins do tipo sessão da tarde e tem outros que são tão ruins e desprovidos de qualquer bom senso, “Os Estagiários” se enquadra na segunda categoria. Em todo curso, palestra ou livro de roteiro me deparei com a mesma regra: quem não planeja, planeja fracassar. Por isso que o roteiro é tão importante, eu só não esperava esse tiro no pé justamente da Google.